quinta-feira, 26 de junho de 2008

Crítica - "Houdini, O Último Grande Mágico"

por Filipe Coutinho
(Esta Crítica pode ser lida na íntegra em "Cinema is my life")

Nota:

Utilizando a mui nobre sabedoria popular, pela qual possuo um grande respeito, há uma expressão que define na perfeição esta fita. É ela: "Nem é carne, nem é peixe". Ao fim de 97 minutos continuamos sem saber se "Death Defying Acts" é um drama, uma comédia, um suspense, tudo isso ou simplesmente nada disso. Este é apenas e unicamente o grande mistério do filme de Gillian Armstrong (realizadora de "Charlotte Gray), já que em termos cinematográficos ele é pouco ou nenhum. Aliás, neste registo existem propostas infinitamente melhores (as comparações são inevitáveis), nomeadamente o soberbo "The Prestige" de Christopher Nolan, com Christian Bale, Hugh Jackman e Michael Caine ou "The Illusionist de Neil Burger, com Edward Norton e Jessica Biel. Com um cartaz tão atractivo e com nomes tão sólidos da sétima arte nada fazia antever que "Death Defying Acts" fosse mais uma desilusão cinéfila este ano. O intemporal e, até agora inigualável Harry Houdini, merecia mais, muito mais.

"Em 1926, Harry Houdini - mágico e ilusionista - é o maior artista do mundo e o público reúne-se para assistir avidamente às suas proezas. Determinado em desmascarar falsos videntes e charlatães, Houdini (Guy Pearce) propõe oferecer dez mil dólares a quem conseguir comunicar com a sua defunta mãe. Quando Mary, uma misteriosa e deslumbrante impostora (Catherine Zeta-Jones) aceita o desafio, Houdini não tem dúvidas que se trata de burla. Mas à medida que o mágico vai convivendo com Mary, vai sucumbindo ao seu charme, acabando refém dos seus próprios sentimentos. Conseguirá o maior escapista do mundo libertar-se da força do amor? Este será o desafio mais arriscado da sua carreira." (sinopse retirada do site Ptgate)

Quanto às prestações, também elas poderiam ser bastante superiores em termos qualitativos se bem que acabam por ser o ponto alto da fita. Guy Pearce, que ofereceu-nos uma interpretação memorável em "Memento", desilude mantendo, ao longo do total da duração do filme, uma inconsistência algo incompreensível oscilando entre o profundo empenhamento e o absurdo interpretativo. Se é verdade que, a espaços, deparamos-nos com rasgos de talento, também é crucial mencionar que Pearce parece totalmente irreconhecível. Mas como nem tudo é mau, uma sensual e cativante Catherine Zeta-Jones é uma das grandes responsáveis que elevam a qualidade do filme. De facto, Jones consegue ser consistente mantendo uma classe intrínseca à sua invejável personalidade aliando o talento de uma performance old school. Depois temos um pequeno génio, destas andanças cinematográficas, denominado Saoirse Ronan que comprova que a sua extraordinária actuação em "Atonement" não foi um simples e mero acaso. Aqui denota uma versatilidade estonteante bem como um incrível sinal de maturidade de uma actriz com apenas, e eu friso, apenas 14 anos. Outro bom registo é o de Timothy Spall, que consegue apresentar a notoriedade que tem demonstrado em inúmeros outros filmes e séries de tv. O restante elenco cumpre com as obrigações mas não está ao nível de um filme de época. Relativamente à realização, Gillian Armstrong não parece muito segura do seu trabalho oscilando entre planos de uma beleza irónica com outros totalmente desnecessários. Também na direcção de actores Armstrong não consegue provar que tem estofo para ocupar a cadeira que utiliza, não conseguindo extrair o máximo de cada um, nomeadamente, Guy Pearce.

Em termos artísticos existem alguns aspectos que devem ser mencionados como o pobre argumento que é completamente incapaz de prender o espectador. Nem os diálogos, nem a narrativa permitem que a curiosidade seja suscitada no espectador. O final é desastroso, sem qualquer tipo de chama ou faísca. Existe ainda uma tentativa de obter uma história de amor comovente que falha em toda a linha, muito por causa da frieza da realização e da falta de intensidade emocional que deveria ser imposta pela banda-sonora. Sonoplastia, essa, que é bastante inconveniente surgindo em momentos inoportunos em que o silêncio era imperial e agonizando outros que necessitavam de acompanhamento musical. Já a fotografia apresenta-se em bom nível oferecendo-nos planos muito interessante e dotados de uma visão clara e pensada.

Em termos globais, "Death Defying Acts" é uma fita medíocre que desiludiu face ao seu aparente potencial. Como já foi foi mencionado supra, existem propostas exponecialmente melhores cinematograficamente e que manterão a fasquia bem elevada para todos os que tentarem ridicularizar a vida de um grande ilusionista como Harry Houdini. No entanto, é inegável que o entretenimento está assegurado e que contamos com duas brilhantes performances das actrizes principais. Por tudo isto, atribuo a nota de 5/10 ou duas estrelas (e meia) em cinco possíveis. O seu visonamento é aconselhável caso seja um fã deste género. Caso contrário é melhor esperar pelo DVD.

A frase:
"I think you're the one we had been waiting for"



Ante-Cinema# / Cinema is my life