quarta-feira, 2 de julho de 2008

Crítica - "Brincadeiras Perigosas - Funny Games US"

por Filipe Coutinho
(Esta crítica pode ser lida na íntegra em "Cinema is my Life")

Nota:

Muito foi debatido relativamente ao facto desta fita ser submetida a um remake. Os que visualizaram o trailer rejeitaram de imediato a versão americana visto que esta é uma cópia fact-simillis da versão original. No entanto, a verdade é que esta versão made in USA era obrigatória e, felizmente, Michael Haneke, decidiu realizá-la. Isto deve-se, sobretudo, à massiva crítica que a fita transparece à violência que é abundantemente consumida pelas massas que anseiam pela visualização de mortes e sangue, sobretudo nas terras do tio Sam. Em "Funny Games U.S." essa nunca é vista mas está sempre lá. A parte assustadora, essa, é induzida através dos sons e das reacções das personagens, uma característica Hitchcockiana que se adequa perfeitamente aos propósitos do realizador. A verdade é que cada vez mais a realidade e a ficção misturam-se transportando resultados catastróficos, comportados em manipulações e manietações provenientes da já mencionada e tão desejada violência. Nesse aspecto, o diálogo final é genial e culmina de forma intrínseca uma crítica visceral cometida ao longo de 111 minutos de filme.

"Uma família em férias recebe a visita inesperada de dois jovens perturbados. As suas idílicas férias transformam-se num pesadelo, à medida que são submetidos a terrores inimagináveis e têm de lutar para permanecer vivos. As férias começam com a viagem de Anna, George e o seu filho Georgie a caminho da sua casa de Verão. Os vizinhos, Fred e Eva, já lá se encontram. Combinam jogar golfe na manhã seguinte. O dia é perfeito. Anna começa a fazer o jantar, enquanto o marido e o filho estão ocupados com o seu barco recentemente restaurado. Subitamente, Anna vê-se frente a frente com um jovem educado, o convidado dos vizinhos, Peter, que veio pedir ovos emprestados. Anna está quase a dar os ovos a Peter, mas hesita. Como é que ele entrou na propriedade? Peter explica que há um buraco na vedação - Fred mostrou-lhe onde. As coisas pareceram estranhas desde o princípio. De repente, a violência irrompe..." (sinopse retirada do site Ptgate)

Por um lado, "Funny Games U.S." é psicótico e perturbador, mas por outro é genial, realista e simplesmente obrigatório. A forma como Haneke consegue induzir vontade no espectador em ver sangue, sem que este nunca se proporcione é, de facto, um combinação de astúcia, talento e genialidade. Aliás, toda a realização de Haneke é imaculada, desde os longos planos de ardil tormento, passando pelos ângulos de filmagem e culminando nas transições entre as cenas. Mas não seria justo apenas falar do realizador quando estamos perante um elenco excepcional. A família, composta por Naomi Watts, Tim Roth e Devon Gearhart, é toda ela extraordinária. Naomi Watts, então, é indescritível já que consegue transportar com enorme versatilidade todo o sacrifício a que está sujeita, substituindo as palavras por actos, reacções, expressões e acções. Depois há um Devon enorme face à curta carreira e tenra idade onde surpreende pela veracidade com a qual encarna a sua personagem. Tim Roth, mais do que consagrado, volta a provar o porquê de ser um grande actor, se bem que não seria necessário, realizando o papel do patriarca que tenta proteger a família apesar da impotência ser de tal ordem que se evidencia um claro sentimento de frustração. Os jovens que submetem a família aos seus jogos são simplesmente aterradores e psicóticos (é impossível não mencionar esta palavra várias vezes). Michael Pitt e Brady Corbet, no papel de Paul e Peter respectivamente, são de tal ordem frios e cínicos que chegam a ser assustadores. Dizem que na versão original, os jovens ainda suplantam estas condições inerentes aos jovens americanos. Será possível? Bem, a verdade é que eles são alemães, por isso tudo é possível. Em termos artísticos, a sonoplastia adequa-se perfeitamente às intenções cruas e frias, assim como os cenários o fazem para a crítica social.

Mais do que a crítica ao já mencionado desejo de violência, "Funny Games U.S." é ainda uma crítica à família perfeita e incondicional que apresenta inúmeras lacunas devido ao facto da ausência de não perfeccionismo, muito graças à imposição da sociedade na idílica figura, que deve ser preservada ao maior custo possível, independentemente da felicidade existir ou não na pessoa a que é submetida à pressão social.

Consigo perceber que o povo norte-americano não goste desta fita visto que se pode tornar incomodativo e inconveniente, sobretudo em um país em que a violência abunda de todos os modos possíveis. No entanto, é imperial dar o devido crédito a Haneke cuja sagacidade e astúcia surpreende e acarreta elevados graus de inteligência e maturidade cinematográfica. Atribuo a nota de 8/10 ou quatro estrelas em cinco possíveis ao filme. Isto deve-se a dois motivos: algumas pequenas incongruências, como o facto de Paul constantemente denominar o seu amigo, Peter, de badocha quando este não o é (algo que provém da versão original em que este é bem mais pesado que o jovem da versão americana); e o facto de ser um remake cujo original não foi por mim visto, não conseguindo, por isso, obter um termo de comparação. De qualquer forma, o original irá ser por mim visto, e quando o for, merecerá uma crítica e, se assim for justificado, uma nota mais elevada.

Em baixo fica uma entrevista com o realizador que é não só esclarecedora como bastante construtiva. (contém pequenos spoilers)

A Frase:
"Anna: Why don't you just kill us?
Peter: [smiling] You shouldn't forget the importance of entertainment."



Ante-Cinema# / Cinema is my life

1 comentário:

Pedro disse...

Devia repensar a sua actividade de crítico, pois este filme é uma enormidade piece of shit.