terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Crítica: BELLE TOUJOURS

por Mário Macedo

Nota: 8/10

Homenagem sentida de Manoel de Oliveira, realizador mais antigo do Mundo, a um dos seus ídolos, Luís Buñuel. Sem pretensiosismo, o filme guia-nos por um provável reencontro entre duas das personagens mais fortes do filme original datado de 1967, "Belle de Jour".

O filme passa-se 38 anos depois do original, onde Henri Husson, maravilhosamente interpretado pelo original Michel Piccoli, pensa ter visto a sua amiga de longa data desaparecida, a senhora Séverine Serizy, num concerto. Este segue-a e fá-la enfrentar o seu passado, aplicando-lhe uma sádica, dolorosa e lenta vingança quando esta busca a verdade acerca da fatídica tarde de à 38 anos. Oliveira apresenta assim de forma inteligente uma possível interpretação do futuro destas personagens, dando a imaginar as alterações de personalidade durante os anos e o sofrimento por que estas passaram, principalmente devido aos remorsos. O filme atinge o seu pico máximo na cena final do jantar, cena pela qual todo o filme anda à volta, num jogo do gato e do rato, com interessantes referências ao filme original e ao mestre Buñuel, e que apesar de não ter o intuito de enfrentar o espectador com um final definitivo, Oliveira explica ao longo do filme a razão pela qual se deve dar este reencontro.

Com pormenores deliciosos e uma fotografia espantosa, com jogos de espelhos e de luzes invejáveis, este filme apesar de ser um misto de planos fixos, tendo apenas um pequeno travelling (mas com grande significado) sobre a estátua de Joana D’Arc, está longe de ser aborrecido. As interpretações de Piccoli fazem rever o Husson de antigamente e Sevérine, que apesar de não ser Catherine Deneuve a dar vida à personagem desta vez, está extremamente aceitável e com uma componente dramática credível por parte da actriz Bulle Ogier.

Sem dúvida que "Belle Toujours" é um filme obrigatório para quem viu a obra original do mestre espanhol, quanto mais não seja para desfazer a curiosidade deixada em aberto no final de "Belle de Jour". É uma obra sem intenções de se afirmar, apenas com o intuito de prestar homenagem e matar saudades. É um reviver do passado com sabor a presente.

TRAILER:


Ante-Cinema#

1 comentário:

Ricardo disse...

Belle Toujours foi das melhores coisas que vi o ano passado (2º lugar no meu top 10), e só uma ideia me ficou do filme: há homens que aquando da sua obra tem momentos que parecem ser tocados por uma qualquer força divina.
A perfeição está em cada plano do filme, a ironia de cada cena e a precisão quase burlesca das conversas de bar, a cena de abertura com a orquestra da Gulbenkian (espero que seja assim que se escreve) ou o jantar final absolutamente deslumbrante acompanhado pelo plano do galo.
Tudo isto é irrepreensível, anciânico e genial.
Um dos melhores filmes de Oliveira e um dos melhores filmes dos últimos tempos.