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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

The Wrestler, por Fernando Ribeiro

Nota: 9/10

"You Know... With a little luck, this could be my ticket back on top!"

Talvez nunca um diálogo de um filme esteve tão próximo da realidade para um actor. Mickey Rourke, que viveu por muito tempo escondido do cinema, teve agora a tão esperada e bem-vinda oportunidade de voltar a dizer ao mundo: "Eu estou vivo!". Em 2005, Rourke voltava a chamar a atenção do cinema quando através da visão de Robert Rodriguez, este apareceu de forma muito peculiar e com um papel algo importante em Sin City. De seguida, foi Tony Scott que voltou a pegar nele, incluindo-o mais uma vez num dos seus filmes, desta feita com Domino. Foi, então, que o aclamado e visionário realizador Darren Aronofsky, lhe fez uma proposta que ele não podia recusar. Segundo se consta, inicialmente a produtora do filme queria dar o papel de Randy "The Ram" Robinson a Nicolas Cage. No entanto, Aronofsky não estava para aí virado, e com a recusa de Cage para desempenhar o papel, as portas abriram-se para Mickey Rourke. Tendo Aronofsky proposto a Rourke que este fizesse o filme mas que só no final da rodagem é que iria ser pago, também lhe prometeu que se fizesse este The Wrestler as coisas poderiam mudar e muito na sua carreira, chegando-lhe ainda a falar numa possibilidade para uma nomeação ao Oscar. Tanto assim foi que, meses depois, Rourke voltou a ser falado pelo mundo e a Academia não se esqueceu de nomear o actor rejuvenescido das "cinzas".
Apesar de ter optado por começar esta crítica pelo desempenho e rejuvenescimento de Mickey Rourke, era muito injusto se dissesse que o filme vive apenas disso. Tanto assim não é que, ao longo do filme, vemos uma vez mais uma realização muito sólida e eficaz de Darren Aronofsky, e actores secundários que complementam muito bem os sentimentos e desenvolvimento da personagem de Rourke ao longo do filme. Mas, como é óbvio, o grande triunfo de The Wrestler é o excelente e nunca visto desempenho de Rourke. Mas se este tem a capacidade de transportar para fora do ecrã os seus mais profundos sentimentos, é a câmera de Aronofsky o principal mentor deste aspecto. Sempre a segui-lo de maneira a transmitir os diferentes aspectos que a sua personalidade enfrenta, desde os momentos mais difíceis como a falta de dinheiro e amigos, até à própria solidão de "The Ram" quando não está nos ringues, o realizador que já mostrou toda a sua mestria em filmes como Requiem for a Dream e The Fountain, volta a triunfar num dos registos mais sentimentais da sua carreira.

Apesar de Mickey Rourke não ter ganho o Oscar para Melhor Actor Principal, conforme muitos pensavam, inclusive eu, fica pelo menos a prova de que o seu talento sempre esteve com ele e que muitos outros projectos de grande qualidade podem surgir na sua carreira. A certa altura, antes dos Oscars, Rourke afirmou que não ganhar o Oscar podia muito bem acontecer dado os "inimigos" que fez durante algum tempo na industria de Hollywood. No entanto, se novos desempenhos como este não surgirem, fica pelo menos um registo interpretativo que marcou pela positiva a sua carreira. Ainda neste aspecto sobre os prémios da Academia, e tendo em conta que aqui se podia falar de muita coisa em relação a este The Wrestler, pergunto o porquê de este filme ter estado ausente em mais categorias dos Oscars. Falo, por exemplo, em categorias como a de Melhor Filme, Realizador, Actriz Secundária para Evan Rachel Wood e Música Original. Ao ver a lista de nomeados para Melhor Filme, retirava por exemplo The Reader, que, para mim, foi um filme bastante sobrevalorizado pela Academia, e assim incluir este The Wrestler. Depois, Evan Rachel Wood apresenta-nos um grande interpretação, sendo ela uma das causas maiores para o desempenho de Mickey Rourke conforme o vimos. No entanto, nesta categoria das Secundárias, teve em sua "representação" Marisa Tomei, que levou para a sua carreira mais uma justíssima nomeação por este The Wrestler. Por último, se a música "Down to Earth" de Peter Gabriel foi nomeada, gostava de saber o que é que esta tem a mais que a do Bruce Springsteen.
No geral, e porque esta crítica já vai longa, é importante registar que não sendo este o melhor filme de Darron Aronofsky, porque à frente ainda se encontra um genial Requiem for a Dream, este The Wrestler é, sem dúvida alguma, um dos filmes mais marcantes e pessoais que o realizador já alguma vez fez. São praticamente duas horas a acompanhar um solitário lutador que tenta lutar contra a naturalidade do tempo e da vida mas, acima de tudo, um homem com um sentimento ainda por explorar. É de registar a forma como o filme desenvolveu o seu final, não entrando nos habituais clichés do género. Um filme para ver e rever.


"A temática que mais sobressai no vasto rol de emoções que é “The Wrestler” é, sem qualquer margem para dúvidas, a solidão. (...) Em suma, temos uma obra equilibrada que não transcende a excelência ao nível da qualidade cinéfila mas que se tornará, muito provavelmente, numa referência em um futuro distante."


Ante-Cinema#

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

The Wrestler

"I'm an old broken down piece of meat and I deserve to be all alone, I just don't want you to hate me."

O Ante-Cinema viu ontem o novo filme de Darren Aronofsky na sessão de visionamento para a imprensa. Se as expectativas eram altas, depois de vermos o filme fica a sensação de dever mais do que cumprido. Por aqui não se esperava uma recepção tão grandiosa mas Aronofsky volta a triunfar uma vez mais. Que se engane quem pensa que o filme vive apenas de Mickey Rourke. A crítica completa brevemente...

Ante-Cinema#

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Dois filmes a não perder e a primeira falha da Academia encontrada?


Esta é altura de que todos os cinéfilos adoram. Cada semana é marcada com filmes de grandes expectativas, seja por causa das nomeações aos Oscars ou por todos os prémios já atribuídos antecedentes a este. Assim sendo, esta semana o certame não foge à regra, estreando nos nossos cinemas dois filmes muito esperados por estas bandas: Revolutionary Road e Milk. E quando dizemos a "primeira falha da Academia encontrada" no título deste post, irão perceber mais abaixo porquê. O Ante-Cinema apresenta assim algumas palavras sobre os novos filmes de Sam Mendes e Gus van Sant mas, no entanto, deixa antes um aviso a todos os leitores: este fim de semana, vão ao cinema.

REVOLUTIONARY ROAD

Nota Ante-Cinema: 9/10

Depois do "leve" Jarhead, Sam Mendes volta à sua realização predilecta, apresentando um estilo já muito familiar na sua filmografia, muito por causa do grande sucesso obtido com American Beauty em 2001. Se nessa altura American Beauty retratava não só um casamento em queda mas também uma família cada vez mais deteriorável nos subúrbios norte americanos, agora, volta a fazê-lo com um casal no centro da história, mas com uma temática que engloba todo o filme e todas as suas personagens.

E que bom é perceber que Sam Mendes percebe disto a potes. Agora pergunto à Academia o porquê da extrema ausência deste filme nas nomeações aos Oscars? E digo isto essencialmente em três aspectos: interpretações principais, realização e banda sonora. A concorrência é muita está claro, mas duvido que a ausência deste Revolutionary Road seja justa.

O filme, apesar de começar devagar com uma pequena apresentação do estado actual e psicológico do casal central, Frank e April Wheeler, começa a crescer e a ganhar total importância com a câmera de Sam Mendes. Repare-se, por exemplo, na madeira como Mendes filma os protagonistas numa cena de discussão entre ambos, lá mais para o fim do filme, através de uma câmera de mão tremida, salientando perfeitamente o estado psicológico e de tensão que o casal Wheeler passa no momento. Depois, com uma banda sonora a cargo de Thomas Newman simplesmente espectacular, com tons de piano sempre a sobressaírem e a entrar nas cenas nos momento certos, dá ao filme uma outra carga emocional e um outro estado de espírito ao espectador.

As interpretações de Kate Winslet e Leonardo DiCaprio são muito boas (mais emblemática Winslet), e que faz passar para fora do ecrã a excelente química que ambos deram a conhecer ao mundo em Titanic. Mais uma vez DiCaprio é, futebolisticamente falando, "roubado", uma vez que volta a ser posto de parte pela Academia, como já aconteceu por três vezes. Mas, apesar dos dois protagonistas principais estarem praticamente perfeitos, há que destacar o justíssimo nomeado ao Oscar de Melhor Actor Secundário, Michael Shannon. Representa perfeitamente a sua personagem alterada, com sérios problemas psicológicos e que tenta a todo custo fazer-se ouvir. E, cá para mim, Shannon até que dava um bom Joker. Vejam o filme e percebem porquê.

No fundo, a adaptação deste filme foi parar às mãos certas, tanto na realização como nas interpretações. Um filme a não perder.


MILK

Nota Ante-Cinema: 8/10

Gus van Sant é um realizador que alia perfeitamente "grandes" e "pequenos" projectos. Ora nos apresenta grandes histórias aliando o cinema convencional americano como ele é, através da aposta de grandes produções orçamentais, ou realiza os seus próprios filmes mais independentes, de teor muito mais experimental, principalmente com os seus jovens que tanto gosta de retratar (Elephant e recentemente Paranoid Park). E, nesse aspecto, ele faz isso como ninguém, notando-se no seu método de filmagem, mesmo numa grande produção como esta.

Que dizer sobre uma pessoa que tanto lutou pelos direitos humanos como Harvey Milk? Homossexual assumido, com vontade de mudar o preconceito e o olhar sobre os homossexuais, e que, ainda hoje, embora menos, são descriminados. É isso que acontece com este Milk, onde Sean Penn, tão perfeito no seu papel que representa com todos os pormenores a pessoa por detrás da personagem, faz com que o resto consiga crescer ainda mais consigo. É o caso de todos os secundários que o filme engloba, onde aqui se destaca imperialmente Josh Brolin, que fecha assim um ano de ouro para a sua carreira com mais uma excelente interpretação.

Mas se um dos grandes feitos reside em Sean Penn, outro dos que torna possível Milk ser o filme que é, essa pessoa chama-se Gus van Sant. É, sem dúvida, um realizador cheio de classe, que nunca entra em nenhum momento com um daqueles típicos clichés ao contar a história de um homem que sobreviveu, lutou e morreu, pelos direitos dos homossexuais nos Estados Unidos da América. Sempre acompanhado com uma típica e sempre boa banda sonora de Danny Elfman, Gus van Sant tira todo o partido dos vários cenários e das excelentes caracterizações das personagens, para realizar um filme cheio de vida, e ainda para mais, cheio de luta em se fazer ouvir aos espectadores. É, por vezes, aliando um certo estilo documental com a sua sempre bela e diferente maneira de filmar, que Milk vai subindo cada vez mais de ritmo ao nível que o filme avança para o seu final.

No fim, as 8 nomeações aos Oscars dão para perceber que apesar de às vezes pensarmos que a Academia anda a dormir à sombra da bananeira, como aconteceu com os casos da ausência de Eastwood e Sam Mendes entre os nomeados, ainda consegue ter o bom senso de premiar filmes cheios de mensagens e poderosos a nível narrativo e conceptual.

Críticas escritas por: Fernando Ribeiro

Ante-Cinema#

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

MILK, por Mário Macedo

NOTA: 8/10

Já lá vão vários meses desde que o trailer do novo filme de Gus Van Sant foi lançado, e devo dizer que aquelas imagens me tinham vindo a causar uma curiosidade enorme devido à força e mestria com que se via Sean Penn a encarar um papel tão diferente de todos os outros da sua carreira. Felizmente foi-me possibilitado assistir à sessão para a imprensa do filme e esclarecer todas as expectativas criadas. Desde já digo: o resultado é positivo!

Gus Van Sant que nos seus últimos projectos tinha vindo a trabalhar maioritariamente com jovens, explorando as dificuldades da adolescência em Elephant e Paranoid Park, neste filme traz-nos algo completamente de diferente e dinâmico. Milk é um filme que se encontra entre a barreira do biopic e do documentário, jogando inteligentemente entre estes pontos toda uma atmosfera equilibrada, permitindo ao espectador nunca chegar ao aborrecimento. A história é simples mas humana. Nota-se uma tentativa em Gus van Sant de tentar mudar a mentalidade dos outros e assim criar um mundo considerado perfeito. Utópico ou não, em certos momentos parece funcionar na perfeição. Todo o enredo retrata o movimento criado por Harvey Milk na década de 70 em San Francisco, ao concorrer para Supervisor da Câmara com a intenção de lutar e conceder direitos aos homossexuais. Totalmente baseada em factos verídicos, a história vai-nos sendo contada à medida que Harvey recorda num pequeno gravador, devido ao possível atentado que possa vir a sofrer, todos os motivos que o levaram a entrar na política e a lutar pelos direitos da sua chamada ‘minoria’.

Todo o filme conta com o estilo característico de Gus Van Sant: planos simples mas que esteticamente encadeados criam no olho humano algo belo. Recorrendo frequentemente ao uso dos reflexos e ao slow-motion para nos transmitir determinadas sensações, Gus Van Sant combina de forma suave e harmoniosa, temas considerados violentos para a sociedade. O próprio uso de material documental da época ajuda o espectador a compreender de que maneira a mentalidade influenciava determinadas acções. Os próprios temas criados por Danny Elfman são propícios a cada cena, permitindo assim transmitir a impressão aspirada pelo realizador.

Ao nível da representação todos os aspectos estão ao mais perfeito nível. Sean Penn tem Oscar escrito em todas as suas cenas. A maneira como encarou a personagem é assustador de tão real que se torna. Todas as expressões, movimentos, e tiques estão lá. Apesar do actor já nos ter habituado a estas brilhantes interpretações, nota-se aqui um total empenho na criação da sua personagem, não havendo qualquer crítica a apontar. Arrisco mesmo a dizer que o filme não viveria sem a interpretação deste, sendo aí que, na minha opinião, mais peca, pois o que torna a obra de Gus Van Sant especial é mesmo Sean Penn. Relativamente aos outros actores, apesar de as suas personagens terem uma presença e carisma no ecrã reduzida comparada à de Harvey Milk , interpretam os seus papéis na perfeição, estando Emile Hirsch, James Franco e Diego Luna "irreconhecíveis". Josh Brolin, o inimigo político de Harvey, fá-lo com a solidez necessária para o papel, criando assim toda uma aura fundamental na percepção da psicologia do personagem.

Milk é um dos filmes mais surpreendentes de Gus Van Sant, e apesar de ser uma das suas maiores obras, no que toca ao nível orçamental, não cai no ridículo nem se deixa subjugar pelo já tão famoso "cliché". É uma obra socialmente poderosa, que tem apenas a intenção de dar a conhecer ao mundo um homem que lutou pelo seu ‘mundo’.

MILK ESTREIA QUINTA-FEIRA EM PORTUGAL



Ante-Cinema#

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

TEN, por Mário Macedo


Nota: 7/10

Abbas Kiarostami, que depois de sucessos como "O Sabor da Cereja" e "O Vento Levar-nos-á" revela-nos em "Ten" um Irão diferente daquele que imaginamos, mostrando-nos um país moderno e com questões sociais abertas.

O filme conta-nos a história de uma mulher recém-divorciada através das várias conversas que esta tem com as diferentes pessoas a quem dá boleia. Todas estas discussões que ela vai tendo acerca dos mais diversos temas, como religião, sexo, fidelidade e o divórcio, vão ajudar a perceber a posição do Irão socialmente, mas sobretudo ajuda a compreender a diferença de pensamento notória de geração para geração. Facto que suporta esta afirmação é, por exemplo, as conversas que a personagem tem com o seu filho de tenra idade, onde este têm uma posição adulta acerca da separação que o afectou, apesar de se notar influência dos pais em certas decisões da criança. E Kiarostami, ele próprio um estudioso da psicologia infantil, pretende isso mesmo, mostrar como as mentes das crianças são influenciáveis, mas, ao mesmo tempo, são cruéis e chegam mesmo a ser mais conscientes que os próprios pais, que no intuito egoísta de quererem ficar com o seu filho tornam toda a situação traumática para o jovem. Pode-se mesmo dizer que, metaforicamente, o filho chega a tornar-se em certos momentos da obra o personagem principal.

Apesar de ser esteticamente simples, é um filme extremamente arrojado, em parte porque a câmara se mantêm sempre estática, mas, por outro lado, e talvez seja este o ponto de mais forte distinção para com toda a cinematografia do autor, a câmara limita-se a situar unicamente dentro do veículo da personagem e possui somente dois planos (tem um terceiro por breves momentos onde se vê a perspectiva da personagem pelo vidro da frente). Apesar de já ter sido tentado este feito no seu "O Sabor da Cereja", onde acompanhamos a missão do personagem no seu jipe ao longo de toda a cidade de Teerão, aqui todo o conceito de topofilia é levado ao extremo.

Kiarostami dá-nos assim, de forma simples mas inteligente, uma impressão do que é o Irão, destruindo todos os cânones conhecidos desta sociedade. É uma obra extremamente refrescante devido aos temas que aborda, que apesar de actuais, não estão com rodeios devido à impressão realista que lhes são dados. É um filme com carácter europeu, mas com o Oriente como pano de fundo.

Ante-Cinema#

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Crítica: BELLE TOUJOURS

por Mário Macedo

Nota: 8/10

Homenagem sentida de Manoel de Oliveira, realizador mais antigo do Mundo, a um dos seus ídolos, Luís Buñuel. Sem pretensiosismo, o filme guia-nos por um provável reencontro entre duas das personagens mais fortes do filme original datado de 1967, "Belle de Jour".

O filme passa-se 38 anos depois do original, onde Henri Husson, maravilhosamente interpretado pelo original Michel Piccoli, pensa ter visto a sua amiga de longa data desaparecida, a senhora Séverine Serizy, num concerto. Este segue-a e fá-la enfrentar o seu passado, aplicando-lhe uma sádica, dolorosa e lenta vingança quando esta busca a verdade acerca da fatídica tarde de à 38 anos. Oliveira apresenta assim de forma inteligente uma possível interpretação do futuro destas personagens, dando a imaginar as alterações de personalidade durante os anos e o sofrimento por que estas passaram, principalmente devido aos remorsos. O filme atinge o seu pico máximo na cena final do jantar, cena pela qual todo o filme anda à volta, num jogo do gato e do rato, com interessantes referências ao filme original e ao mestre Buñuel, e que apesar de não ter o intuito de enfrentar o espectador com um final definitivo, Oliveira explica ao longo do filme a razão pela qual se deve dar este reencontro.

Com pormenores deliciosos e uma fotografia espantosa, com jogos de espelhos e de luzes invejáveis, este filme apesar de ser um misto de planos fixos, tendo apenas um pequeno travelling (mas com grande significado) sobre a estátua de Joana D’Arc, está longe de ser aborrecido. As interpretações de Piccoli fazem rever o Husson de antigamente e Sevérine, que apesar de não ser Catherine Deneuve a dar vida à personagem desta vez, está extremamente aceitável e com uma componente dramática credível por parte da actriz Bulle Ogier.

Sem dúvida que "Belle Toujours" é um filme obrigatório para quem viu a obra original do mestre espanhol, quanto mais não seja para desfazer a curiosidade deixada em aberto no final de "Belle de Jour". É uma obra sem intenções de se afirmar, apenas com o intuito de prestar homenagem e matar saudades. É um reviver do passado com sabor a presente.

TRAILER:


Ante-Cinema#

domingo, 14 de dezembro de 2008

Crítica: AUSTRÁLIA

por Fernando Ribeiro

NOTA: 7/10

Como sabem, as minhas expectativas quanto a este Austrália eram muito elevadas. Felizmente tive a grande oportunidade de estar presente na sessão de imprensa, que ocorreu na passada quinta-feira de manhã, e pude, então, acabar com a ansiedade que tinha para ver este filme.

Estando ausente desde 2001, altura em que estreou o terceiro e último filme da sua trilogia chamada “Cortina Vermelha” (Strictly Ballroom, Romeo + Juliet e Moulin Rouge!), Baz Luhrmann regressa agora com um trabalho muito mais pessoal, abordando num ponto referencial as consequências da Segunda Guerra Mundial no seu país natal: Austrália. E essa é uma das características que fazem de Luhrmann um excelente contador de histórias. O facto de pegar num momento da história do seu país e do mundo, e fazer dela uma história de esperança e amor, torna este Austrália numa excelente fábula e num reencontro mais do que esperado entre ele e o cinema. Após este seu longo tempo de ausência, é natural que as atenções estejam intrinsecamente viradas para este seu trabalho. As exigências tornam-se também outras, e daí que talvez tivesse existido tanta discordância entre críticos e o próprio conceito do filme. O realizador australiano é também detentor de duas obras cinematográficas que marcaram para sempre o cinema, casos de Romeo + Juliet e Moulin Rouge!, nos quais, quer se queira quer não, faz com que as expectativas sejam sempre elevadíssimas. E nesse ponto, dou a minha bênção a Austrália, por comprovar que filmes destes ainda são possíveis. Um épico, que poderia muito bem ser associado a filmes anteriores como Gone with the Wind (já muitas vezes comparados) ou até Cold Mountain, é aqui bem distanciado dessas obras do género e que fazem dele uma força bem mais especial. No entanto, Austrália é também detentor de contrariedades, que fazem dele uma peça menor aos anteriores filmes de Luhrmann, e um filme que poderia ter ganho muito mais se não fossem essas nuances.

Visualmente, Baz Luhrmann é totalmente exímio. Mas neste filme acontece uma coisa que em muito distancia este seu trabalho dos anteriores: os efeitos especiais. Se por um lado consegue captar variadíssimos cenários reais de forma exemplar, por outro peca na excessiva abordagem aos efeitos por computador. E isso nota-se numa cena em específico (que vocês irão perceber qual é), onde o nível a que estes foram usados e para aquilo que eram necessários, fez com que se perdesse muito da sua essência natural. Acaba por ser um contraponto tentar misturar realidade vs. efeitos por computador. Moulin Rouge! vivia também muito dessa mistura, contudo, a sua abordagem era muito mais cuidada e não tão superficial. O filme apresenta, ainda, alguns clichés que poderiam ser absolutamente dispensáveis e, com menos 15 ou 20 minutos, o resultado final seria certamente mais satisfatório. Mesmo assim, e apesar destas nuances, Austrália continua a ser visualmente fascinante, destacando-se a fotografia a cargo da também australiana, Mandy Walker. O jogo de cores e a aliança ao também notório guarda roupa fazem da fotografia o ponto mais alto e valorizado do filme.

No que toca às interpretações, existem dois pontos fulcrais a registar. O primeiro, no que diz respeito a Nicole Kidman, já que Luhrmann parece ter um poder especial para filmar a actriz. Aconteceu o mesmo em Moulin Rouge! e volta a acontecer também neste filme. Sem dúvida que a relação entre ambos é, em todo, especial, valendo a Kidman uma das suas melhores interpretações dos últimos anos. Consegue aliar de forma sublime a sua beleza com a própria encarnação que a personagem necessitava. O segundo e, de certa forma, mais surpreendente ponto, trata-se da excelente interpretação do pequeno actor Brandon Walters. Tendo apenas 12 anos de idade, e sendo este o seu primeiro papel em cinema, faz com que este jovem seja um dos grandes atributos deste Austrália. Aliás, não é à toa que tenha recebido uma nomeação para Melhor Jovem Actor na décima quarta edição do Critics’ Choice Awards, na qual os vencedores serão anunciados no próximo dia 8 de Janeiro de 2009. É, então, de louvar o grande talento deste jovem actor, com um excelente futuro pela frente. Pelo menos, assim o esperamos. De louvar também o competente desempenho de Hugh Jackman, com claros traços “Eastwoodianos” no seu papel.

Basicamente, Austrália foi feito com uma enorme paixão apesar de falhar em alguns pontos que o tornariam num filme único. Foi pena porque tinha tudo para se tornar numa das histórias mais fascinantes do cinema mas, como já disse, de todos os trabalhos de Luhrmann, este revela-se claramente inferior. Quanto aos Oscars, acredito fielmente em nomeações para as categorias técnicas, mas nada mais.

Ante-Cinema#

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Brevemente no Ante-Cinema: A Crítica de AUSTRALIA

O Ante-Cinema teve a grande honra de poder estar presente na sessão de visionamento para a imprensa, que ocorreu esta quinta-feira de manhã nos cinemas UCI Arrábida Shopping, do filme Australia.

Enquanto a crítica não chega aqui a este espaço, podem ler uma primeira opinião no Cinema is my Life. Isto porque ainda tive a oportunidade, no fim da sessão, de trocar umas palavras com o coordenador deste blog (Fifeco).

Durante este fim de semana fiquem então atentos, e enquanto aguardam pela crítica, vejam em baixo o pequeno documentário sobre o guarda roupa de Australia, que como sempre acontece em cada filme de Baz Luhrmann, é formidável.

E vocês, qual acham que será o veredicto do Ante-Cinema?



Ante-Cinema#

sábado, 15 de novembro de 2008

Para quem ainda tem dúvidas acerca de 'Blindness - Ensaio sobre a Cegueira'


Nota Ante-Cinema: 8/10

O Ante-Cinema apresenta em baixo os primeiros cinco minutos de 'Blindness'. Com o propósito de incentivar todos aqueles, que de certa forma ainda não se encontram muito motivados para a sua visualização, conforme foi possível constatar no espaço dos comentários referente ao espaço do 'Filme do Mês', fica então aqui uma pequena recomendação e um ponto de partida para que o vosso entusiasmo cresça.

Este filme, realizado pelo brasileiro Fernando Meirelles, apresenta uma narrativa extremamente delicada. Como uma crítica fulminante ao próprio conceito da sociedade e aos perigos a que podemos muito bem estar sujeitos, este faz assim um retrato de algumas pessoas e especialmente da única pessoa que vê num "mundo" de cegos, onde estes se têm que ajustar e tentar sobreviver ao caos em que a sociedade se tornou. O retrato da destruição e da forma como o mundo se tornou devido àquela epidemia, é muito bem representado pela própria câmera de Meirelles.

Com interpretações bastante competentes, nomeadamente de Julianne Moore, Mark Ruffalo e Alice Braga, o filme apresenta ainda uma fotografia muitíssimo bem trabalhada para a temática que 'Blindness' apresenta. A realização levada a cabo por Meirelles tem muito dos seus trabalhos anteriores ('Cidade de Deus' e 'O Fiel Jardineiro'), e é como muitos já sabem a adaptação ao livro, com o mesmo nome, de José Saramago. São motivos que cheguem para vocês correrem de imediato para as salas de cinema. Os cinco minutos iniciais em baixo.



Ante-Cinema#

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Não deixem passar ao lado este "Taken"...

"Taken" (Busca Implacável), tem a enorme particularidade de conter dois nomes que fazem dele um filme a ter muito em conta. Esses nomes são Luc Besson e Liam Neeson. O primeiro, envolvido no argumento do filme a par com Robert Mark Kamen, para além de já ter dado excelentes provas de sucesso como realizador, dá mais uma através do argumento. O segundo, não é preciso dizer muito. Liam Neeson confirma o seu grande estatuto como actor, tendo precisamente uma cena que faz dele o grande trunfo deste "Taken" (aquela em que ele se encontra ao telefone com a sua filha e pouco tempo depois com o raptor). Essa cena pode ser vista em boa largura no trailer do filme que se encontra em baixo, confirmando-se assim aquele frio na espinha que surgia sempre que o visionávamos. Se ainda não sabem do que se está aqui a falar, atentem neste excerto do argumento relativamente à cena em questão e no trailer internacional do filme em baixo. E já sabem, vão ao cinema vê-lo porque vale a pena! "Taken" estreou na passada quinta-feira em Portugal.

"I don't know who you are. I don't know what you want. If you are looking for ransom, I can tell you I don't have money. But what I do have are a very particular set of skills; skills I have acquired over a very long career. Skills that make me a nightmare for people like you. If you let my daughter go now, that'll be the end of it. I will not look for you, I will not pursue you. But if you don't, I will look for you, I will find you, and I will kill you."



Ante-Cinema#

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

"Desejos Selvagens" - Com o Apoio do Ante-Cinema

por Fernando Ribeiro

Nota: 7/10

Tom Kalin, realizador de culto e que cumpre muito bem com este "Desejos Selvagens", traz-nos um filme sem medo dos preconceitos e sem qualquer tipo de hesitação quanto à interpretação da audiência relativamente ao seu produto final. No entanto, isto tem sempre os seus se nãos.
"Desejos Selvagens" tem tudo para obter a marca de incompreendido, uma vez que pelas cenas chocantes que são apresentadas ao espectador, elas acabam por ser susceptíveis para os consequentes risos ou mesmo para um certo mal estar devido ao poder psicológico que elas apresentam. No entanto, elas conseguem transmitir devidamente o puro drama duma família que luta por se adequar a diferentes sociedades ao longo dos seus tempos, e que tenta ao máximo inserir-se nos ideais familiares da altura. Como disse em cima, o filme não apresenta qualquer tipo de preconceitos, tanto sociais como afectivos. O que é para se mostrar, está lá sem nenhum tipo de codificação ou hesitação. Isto permite assim uma grande força ao drama do filme, que junta também grandes interpretações de Julianne Moore e do jovem Eddie Redmayne. Para além disso contém uma fotografia exemplar. "Desejos Selvagens" peca apenas pelo seu início algo morto e que deixa o espectador um pouco distraído quanto àquilo que se está a passar.
Deixo este espaço aberto para as vossas opiniões, para assim ser possível discutir as diferentes ideias que existirão relativamente a este filme de Tom Kalin.



Ante-Cinema#

domingo, 21 de setembro de 2008

Crítica - "Gomorra"

por Mário Macedo (Autor Convidado)

Nota: 8/10

Adaptado do best-seller de Roberto Saviano, a obra de Matteo Garrone, "Gomorra" é o retrato de uma sociedade com ligações à máfia napolitana, a Camorra. Ao longo da película assistimos a cinco curtas-metragens misturadas entre si que retratam os vários negócios ilícitos que fazem da Camorra uma das máfias mais poderosas de Itália. Temos os jovens, que são a base de muito tráfico na cidade napolitana, os pagamentos por protecção, um responsável por um aterro de material químico e um costureiro que trabalha para a alta-costura.
O título do filme deixa antever aquilo a que vamos assistir, Gomorra é uma cidade bíblica que, juntamente com Sodoma, representa o pecado. Os subúrbios de Nápoles são isso mesmo, onde existe uma sociedade suja, que vive com medo de represálias, e onde cada movimento dado em falso resultará na morte. Atrevo-me a dizer que foi um dos retratos da máfia mais reais que alguma vez vi, em parte pelas excelentes interpretações dos actores, na sua maioria amadores, que entregam ao seu papel tamanha dedicação e intensidade, que cheguei ao ponto de me questionar se estes não pertenciam à Camorra.
A nível cinematográfico devo admitir que achei espantosa a cena inicial, onde a crueza e violência da cena conjugada com a música totalmente inesperada torna desta cena uma das mais originais que já vi nos últimos tempos, sendo de destacar toda a banda sonora, que retrata na perfeição todo o gueto que são os subúrbios de Nápoles. Um dos pontos que menos apreciei, mas que não retiram qualquer genialidade ao filme, trata-se da maneira de filmar de Matteo Garrone, que em alguns planos tenta ser demasiado indie\doc, em parte talvez para fornecer maior realismo às cenas, mas que em certas situações parece extremamente exagerado.
Concluindo, é um filme que recomendo vivamente e que vem mostrar sem rodeios ou efeitos a realidade de uma cidade e, principalmente de uma sociedade. O cinema italiano como não o víamos à muito.

Ante-Cinema#

terça-feira, 29 de julho de 2008

Crítica - "The Dark Knight"

por Filipe Coutinho
(esta crítica pode ser lida na íntegra em "Cinema is my Life")

Nota:

Desta feita irei começar pelo fim da crítica, ou seja, pela nota e as apreciações finais. E poderão-se interrogar acerca do porquê da minha decisão. Simplesmente porque este "The Dark Knight" merece, por tudo o que representa no mundo cinematográfico e pela sua genialidade desde o primeiro momento em que a fita começou a rolar. Atribuo a perfeição a este magnífico exemplar da sétima arte, precisamente porque esta não existe, e tal como os seus representantes são imperfeitamente perfeitos. Assim sendo, o 10 em 10 ou cinco estrelas em tantas possíveis parecem-me não só justas, mas também obrigatórias. O argumento é um dos melhores que já visualizamos em filme, as interpretações são todas elas soberbas e a realização é magistral, consagrando, definitivamente, Christopher Nolan como uma das mais altas esfinges a habitar o mundo Hollywoodesco nos dias que corre, assim como reforçou a sua posição na minha estrita lista de realizadores preferidos. Ladys and Gentlemen, behold one of the greastest action movies ever made and the best blockbuster that ever appeared on a screening room (é verdade, a saudação inglesa é merecida).

É assaz complicado decidir por onde começar a destacar as minhas impressões sobre esta longa-metragem. Como tal talvez seja melhor salientar o único aspecto que eu considero negativo em todos os 152 minutos de duração, isto é, a ausência de algum realismo no que toca alguns ferimentos por parte dos intervenientes. Não me refiro à forma como elas se sucederam mas, precisamente, o momento em que elas se deram, já que o sangue seria inevitável e ele, de facto, não está lá. Com isto não pretendo proferir que desejaria vê-lo, bem pelo contrário, daí que esse facto seja, quanto a mim, irrelevante na ponderação da nota final, tendo em conta que todos os bons aspectos superam de forma graciosa e esplêndida esse ponto menos forte. De notar, já que o assunto surgiu, que não somos presenteados com uma única gota de sangue durante a total extensão da fita (corrijam-me caso esteja errado, mas honestamente não me recordo de o visualizar).

Em termos positivos, seria impensável não destacar uma das mais sublimes performances que já apareceram no ecrã de uma sala de cinema. Falo, obviamente, do falecido Heath Ledger. Se é verdade referir que a mediatização em torno da sua morte beneficiou o sucesso do filme, também é extremamente injusto proferir que Ledger merece a nomeação para o Óscar, apenas e só pela mesma razão. Sendo totalmente imparcial, o actor realizou um papel fenomenal dotado de uma personalidade tão forte e tão psicótica que impressiona qualquer espectador. Toda o processo criativo que esteve envolvido na construção do Joker é simplesmente estonteante, sobretudo no que toca a todos os tiques que este possui, dando aquele aspecto verídico e muito real de que todos detém uma larga quantidade de medo. E é precisamente nessa matéria que Joker se revela como a consciência de qualquer sociedade moderna. A verdade é que tudo está planeado ao mais pequeno pormenor, mas basta outro pequeno pormenor de igual tamanho para ruir com as estruturas que a nossa sociedade conseguiu construir. Todos dependemos da força policial e outras entidades que asseguram a nossa segurança, mas também é crucial raciocinar que esses também são seres humanos e que nem sempre se conseguem defender. Todos nós detemos um papel fulcral e só cumprindo-o poderemos proteger aqueles por quem detemos mais carinho e, até, amor. Se a metáfora à fragilidade do mundo em que vivemos está muito bem aplicada e extremamente funcional, é porque existe um grande actor que consegue-nos recordar o nosso instinto mais básico. Refiro-me, é claro, à sobrevivência. Sinceramente, não existem palavras suficientes para descrever tão imaculada interpretação. vejam-na e retirem as vossas próprias conclusões. Certamente, partilharão da minha opinião.

Christian Bale volta a estar em grande como o também frágil herói e grande esperança da sociedade para um mundo melhor. O seu papel como Bruce Wayne está em pé de igualdade com o de Batman, pois quer como o frágil cidadão, quer como o frágil super-herói, a personalidade vigorosa e o sentimentalismo, escondido por detrás de um homem que desespera por uma vida normal, são bem patentes em cada aparição no ecrã. Se no início da saga, provou-se como o melhor Batman de sempre, na sequela, consolida esse mais do que justo estatuto. Aaron Eckhart é o terceiro nome a reter, já que a sua transformação de Harvey Dent em Two-Face é tão imaculada quanto surpreendente. Não pelo facto da transformação, que é conhecida por todas, mas pela forma consistente com que a realiza. É simplesmente reveladora de um enorme talento cinematográfico. Mais uma vez, o amor prova que quebra qualquer barreira, tanto para o bem, como para o mal. Depois há um excelente Gary Oldman que é a personificação da mais simples força policial em Gotham City. Tal como em "Batman Begins", cumpre perfeitamente a tarefa que lhe é encarregue, revelando-se um antro de surpresas, tanto emocionais, como narrativas. Morgan Freeman é também ele detentor de um papel um pouco mais longo, e como sempre o fez, não desilude, mantendo uma postura exemplar nesta espécie de "Q". O eterno Michael Caine volta a brilhar enquanto Alfred Pennyworth, dotando a seriedade de um mordomo à amizade de um amigo e até, de um pai, sempre oferecendo a voz da razão quando forças mais altas se elevam em uma mente dorida, como a do "Master Wayne". Maggie Gyllenhall é a Rachel Dawes que Katie Holmes nunca conseguiu ser, onde a mestria desta é infinitamente superior à da prévia. É bastante mais humana e crítica, sobretudo através dos seus fulminantes olhos carregados com um semblante pesado e agudo. As restantes interpretações são suficientes para manter mais uma componente imaculada neste seio de genialidade.

Depois há um senhor chamado Christopher Nolan que resolveu, a par do seu irmão, escrever um dos mais brilhantes argumentos que já visualizei em película. Ainda bem que o de Michael Bay foi rejeitado... ainda bem. Todo ele é surpreendente como extremamente moralista, colocando situações incrivelmente complexas e dotando-as de soluções totalmente imprevisíveis. Os diálogos são fluídos e recheados de citações memoráveis, proporcionando grandes momentos de inspiração pública. Outro dos pontos fortes do argumento é o facto de que ele abrange várias personagens mas estas nunca se "atrapalham" e não existe uma busca de maior protagonismo em qualquer uma delas. A isso chama-se uma relação estrita e intrínseca entre os actores e uma excelente direcção dos mesmos por parte do realizador. A realização deste mesmo senhor é igualmente representativa de extrema qualidade, unindo o negro do noir ao brilhantismo dos filmes de acção sem nunca cair no erro de levar as sequências ao exagero, onde, de resto, a quase total ausência de CGI's foi fulcral e determinante, e por esse facto, ficarei eternamente agradecido a Nolan. A fotografia, sonoplastia, caracterização e guarda-roupa estão ao nível de todos os outros parâmetros já mencionados. De reflectir acerca da rodagem em Chicago que é deveras estonteante, dando uma unicidade incrível, como nunca vista anteriormente.

Sinceramente, falham-me as palavras para descrever o melhor blockbuster de sempre, o melhor filme de acção de sempre e um dos melhores filmes de sempre. Não tenho qualquer dúvida que irá acabar no top 10 do IMDb, e ainda bem que isso irá suceder, pois é precisamente esse o local onde merece estar e é esse o local onde está no meu. Sim, é verdade, é uma crítica escrita a "quente", mas não existe volta a dar. The Dark Knight" é simplesmente obrigatório. Eu irei vê-lo uma segunda vez ao cinema e, quem sabe, uma terceira. Não se estão a rir?? "Why so serious??'

(vou mesmo revê-lo em cinema).

As Frases:
"Come on, I want you do it, I want you to do it. Come on, hit me. *Hit me!* "

"The only justice in an unfair world is chance."

"The only sensible way to live in this world is without rules!"

"See, I'm a man of simple tastes. I like gunpowder...and dynamite...and gasoline! Do you know what all of these things have in common? They're cheap!"

"Let's put a *smile* on that face!"

(entre muitas, muitas outras)

Ante-Cinema# / Cinema is my Life

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Crítica - "Wanted"

por Fernando Ribeiro

NOTA: 7/10

Depois de “Night Watch” e “Day Watch”, Timur Bekmambetov regressa à realização, desta vez, tendo a total confiança de Holywood para fazer um filme de acção competente e digo de um grande blockbuster de verão. Pois é, e isso foi o que realmente aconteceu. Antes de mais, juntar nomes como James McAvoy, Angelina Jolie e Morgan Freeman, leva logo a incutir o nosso interesse miudinho para ver-mos este filme. Depois, os vários trailers divulgados sobre “Wanted”, levava a crer que estaríamos perante um bom filme, repleto de efeitos especiais muito bem tratados. Assim, e depois de o ver-mos, tal se sucede e a nossa opinião não muda muito através do nosso entusiasmo pelo filme.

Inicialmente a personagem de James McAvoy (Wesley Gibson), digamos, que aparenta ser alguém que está sozinho no mundo, tendo um trabalho que detesta e uma vida completamente inútil. Mas isso vai mudar por completo, quando surge Fox (Angelina Jolie), que lhe transporta assim para o mundo dos assassinos, nomeadamente, para uma organização que já existe à longos anos, chamada de “Fraternidade”.

O filme consegue desde o início e até ao final, agarrar muito bem a nossa atenção. Todos os momentos de acção que ocorrem em “Wanted”, são especialmente bem tratados, e Timur conseguiu de certa forma, que certas cenas que à partida podiam soar como ridículas para alguns, se tornassem num grande momento, não dando asas para qualquer risota, coisa que falha em muitos filmes de acção. Falo por exemplo, no todo espectáculo visual (que já nos trailers tinha sido mostrado), de carros a voarem sobre outros, e principalmente em camera lenta. Tudo isto é particularmente bem pensado, dando ao filme todo um sentido digno, e fornecendo a cada personagem daquela organização, um rigor ainda mais elevado.

Quanto às interpretações, todas elas cumprem devidamente o seu dever. Entretêm o público, e dão assim uma prestação digna de um bom filme de acção. “Wanted” entrou já no recorde pessoal de Angelina Jolie, como o filme em que participa que teve a melhor estreia de sempre, e não é também à toa que "Wanted", se esteja a portar muito bem nas bilheteiras norte americanas. É um grande filme de entretenimento, e mais uma vez, como aconteceu com “Night Watch”, Timur Bekmambetov não desilude. Um filme a não perder.

Em baixo encontra-se uma entrevista ao realizador Timur Bekmambetov, onde ele fala um pouco sobre o conceito do filme.



Ante-Cinema#

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Crítica - "Brincadeiras Perigosas - Funny Games US"

por Filipe Coutinho
(Esta crítica pode ser lida na íntegra em "Cinema is my Life")

Nota:

Muito foi debatido relativamente ao facto desta fita ser submetida a um remake. Os que visualizaram o trailer rejeitaram de imediato a versão americana visto que esta é uma cópia fact-simillis da versão original. No entanto, a verdade é que esta versão made in USA era obrigatória e, felizmente, Michael Haneke, decidiu realizá-la. Isto deve-se, sobretudo, à massiva crítica que a fita transparece à violência que é abundantemente consumida pelas massas que anseiam pela visualização de mortes e sangue, sobretudo nas terras do tio Sam. Em "Funny Games U.S." essa nunca é vista mas está sempre lá. A parte assustadora, essa, é induzida através dos sons e das reacções das personagens, uma característica Hitchcockiana que se adequa perfeitamente aos propósitos do realizador. A verdade é que cada vez mais a realidade e a ficção misturam-se transportando resultados catastróficos, comportados em manipulações e manietações provenientes da já mencionada e tão desejada violência. Nesse aspecto, o diálogo final é genial e culmina de forma intrínseca uma crítica visceral cometida ao longo de 111 minutos de filme.

"Uma família em férias recebe a visita inesperada de dois jovens perturbados. As suas idílicas férias transformam-se num pesadelo, à medida que são submetidos a terrores inimagináveis e têm de lutar para permanecer vivos. As férias começam com a viagem de Anna, George e o seu filho Georgie a caminho da sua casa de Verão. Os vizinhos, Fred e Eva, já lá se encontram. Combinam jogar golfe na manhã seguinte. O dia é perfeito. Anna começa a fazer o jantar, enquanto o marido e o filho estão ocupados com o seu barco recentemente restaurado. Subitamente, Anna vê-se frente a frente com um jovem educado, o convidado dos vizinhos, Peter, que veio pedir ovos emprestados. Anna está quase a dar os ovos a Peter, mas hesita. Como é que ele entrou na propriedade? Peter explica que há um buraco na vedação - Fred mostrou-lhe onde. As coisas pareceram estranhas desde o princípio. De repente, a violência irrompe..." (sinopse retirada do site Ptgate)

Por um lado, "Funny Games U.S." é psicótico e perturbador, mas por outro é genial, realista e simplesmente obrigatório. A forma como Haneke consegue induzir vontade no espectador em ver sangue, sem que este nunca se proporcione é, de facto, um combinação de astúcia, talento e genialidade. Aliás, toda a realização de Haneke é imaculada, desde os longos planos de ardil tormento, passando pelos ângulos de filmagem e culminando nas transições entre as cenas. Mas não seria justo apenas falar do realizador quando estamos perante um elenco excepcional. A família, composta por Naomi Watts, Tim Roth e Devon Gearhart, é toda ela extraordinária. Naomi Watts, então, é indescritível já que consegue transportar com enorme versatilidade todo o sacrifício a que está sujeita, substituindo as palavras por actos, reacções, expressões e acções. Depois há um Devon enorme face à curta carreira e tenra idade onde surpreende pela veracidade com a qual encarna a sua personagem. Tim Roth, mais do que consagrado, volta a provar o porquê de ser um grande actor, se bem que não seria necessário, realizando o papel do patriarca que tenta proteger a família apesar da impotência ser de tal ordem que se evidencia um claro sentimento de frustração. Os jovens que submetem a família aos seus jogos são simplesmente aterradores e psicóticos (é impossível não mencionar esta palavra várias vezes). Michael Pitt e Brady Corbet, no papel de Paul e Peter respectivamente, são de tal ordem frios e cínicos que chegam a ser assustadores. Dizem que na versão original, os jovens ainda suplantam estas condições inerentes aos jovens americanos. Será possível? Bem, a verdade é que eles são alemães, por isso tudo é possível. Em termos artísticos, a sonoplastia adequa-se perfeitamente às intenções cruas e frias, assim como os cenários o fazem para a crítica social.

Mais do que a crítica ao já mencionado desejo de violência, "Funny Games U.S." é ainda uma crítica à família perfeita e incondicional que apresenta inúmeras lacunas devido ao facto da ausência de não perfeccionismo, muito graças à imposição da sociedade na idílica figura, que deve ser preservada ao maior custo possível, independentemente da felicidade existir ou não na pessoa a que é submetida à pressão social.

Consigo perceber que o povo norte-americano não goste desta fita visto que se pode tornar incomodativo e inconveniente, sobretudo em um país em que a violência abunda de todos os modos possíveis. No entanto, é imperial dar o devido crédito a Haneke cuja sagacidade e astúcia surpreende e acarreta elevados graus de inteligência e maturidade cinematográfica. Atribuo a nota de 8/10 ou quatro estrelas em cinco possíveis ao filme. Isto deve-se a dois motivos: algumas pequenas incongruências, como o facto de Paul constantemente denominar o seu amigo, Peter, de badocha quando este não o é (algo que provém da versão original em que este é bem mais pesado que o jovem da versão americana); e o facto de ser um remake cujo original não foi por mim visto, não conseguindo, por isso, obter um termo de comparação. De qualquer forma, o original irá ser por mim visto, e quando o for, merecerá uma crítica e, se assim for justificado, uma nota mais elevada.

Em baixo fica uma entrevista com o realizador que é não só esclarecedora como bastante construtiva. (contém pequenos spoilers)

A Frase:
"Anna: Why don't you just kill us?
Peter: [smiling] You shouldn't forget the importance of entertainment."



Ante-Cinema# / Cinema is my life

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Crítica - "Vertigo"

por Filipe Coutinho
(Esta crítica pode ser lida na integra em "Cinema is my Life")

Nota:

A cada filme que passa, fico cada vez mais fascinado com a compreensão que Hitchcock detém da mente humana. É de facto, um psicólogo cinematográfico que não encontra limites para criar insegurança e medo nos que visualizam os seus filmes. Dentro do terror/suspense tivemos filmes como "Psycho" e "The Birds" que conseguiram afastar muitas pessoas das suas banheiras assim como fez com que ganhassem um respeito muito mais acentuado pelos pássaros. Dentro do thriller/mistério, Hitchcock ofereceu-nos "Rear Window" e este "Vertigo" que realçaram a obsessão e a paranóia inerente à vontade da mente humana em ir além da curiosidade. É por isto que Hitchcock se tornou em uma lenda da sétima arte e é precisamente por isto que é considerado um dos melhores realizadores que já habitaram neste planeta.

"Vertigo" conta a história do detective John Feguson (James Stweart) que, após a morte do seu colega de profissão, decide retirar-se da força policial devido às vertigens que aterrorizam o seu dia-a-dia. Gavin Elster (Tom Helmore), um velho conhecido de Ferguson, convence-o a voltar ao papel de detective quando lhe propõe que este siga a mulher de Elster, de seu nome Madeleine Ester (Kim Novak), convencido que esta está com graves problemas psicológicos. Aquele que parecia um trabalho fácil cuja única dificuldade basearia-se em relatórios periódicos, transforma-se em uma tarefa obsessiva e alucinada quando Madeleine se revela bem mais complexa do que parece e o detective Ferguson apaixona-se por esta.


Tudo em "Vertigo" parece cuidadosamente produzido e, realmente, nada se baseou em um simples acaso. Hitchcock havia estado em São Francisco e sempre considerou que aquela magnífica cidade seria o cenário ideal para uma história de mistério e obsessão, tudo gravado através de um propositadamente induzido intenso nevoeiro que cria uma tensão exponencialmente assertiva. Como é óbvio, a cabeça do mestre do suspense começou a explodir de criatividade e o desafio era agora encontrar um argumento que se identificasse com as ideias do realizador. Este passou vários meses a conceber a história e só depois começou a requerir os ditos argumentos. Só a terceira tentativa se revelou satisfatória e, assim, finalmente começou a produção. Tudo estava testado e as rodagens estavam prontas a iniciar. Eis senão quando a actriz Vera Miles anunciou a sua gravidez que, por conseguinte, a impedia de rodar a fita. Foi então que Hitchcock começou a pesquisar alternativas e descobriu a bela Kim Novak. O sucesso de uma obra de um génio estava prestes a ser concebida.

Relativamente às interpretações contamos com um gigante James Stweart cuja actuação é assombrosa e deveras psicótica, conseguindo criar uma ligação extremamente intrínseca com a sua personagem. De facto, não é por acaso que James Stweart é considerado, pela American Institute of Film (AIF) como um dos melhores três actores da história da sétima arte. O seu papel é tão convincente que nos transporta por completo para aquele universo de obsessão. A última hora de fita é aquela onde melhor exemplifica o potencial enquanto muito prestigiado actor e, apesar de algumas reservas, quase que considero este o melhor papel de James Stweart. De resto, é uma das melhores parcerias vistas em cinema. Refiro-me à relação entre Hitchcock e Stweart que no passado também havia resultado em outra obra-prima, de seu nome “Rear Window”, onde o voyerismo e a paranóia são os temas em maior destaque. Kim Novak é a femme fatale e também por isso considero esta obra como um thriller com contornos noir que são inevitavelmente belos. Novak é brilhante não ficando nada atrás do seu colega de profissão oferecendo-nos uma performance multi-esquemática e versátil. Aquela que começou por se tornar uma simples substituta revelou-se uma autêntica estrela repleta de um misteriosismo intrigante e viciante. Outros papéis secundários como o de Tom Helmore são notáveis e elevam a qualidade do filme a outro nível. Da realização de Alfred Hitchcock pouco mais há a salientar exceptuando o facto de que apostou numa abordagem ligeiramente diferente recaindo em um noir menos específico mas mais minucioso.

Em termos artísticos destaca-se a sonoplastia que é qualquer coisa de extraordinária, já que consegue criar uma tensão arrepiante manipulando o espectador a seu bel-prazer. Também os cenários com São Francisco como pano de fundo são maravilhosos e tornam-se cada vez mais enigmáticos devido ao nevoeiro imposto pelo realizador que torna toda a história bem mais paranóica e hipnótica. Também a fotografia é de uma beleza noir que se associa claramente a todo o filme.

Pensar que quando “Vertigo” foi lançado, o seu sucesso foi escasso é quase um crime tendo em conta que estamos perante uma obra de uma qualidade cinéfila simplesmente fabulosa. Arrisco a dizer que é “A” obra-prima de Hitchcock. Felizmente o tempo tem destas coisas e encarregou-se de colocar esta fita no pódio. Por tudo isto, parece-me evidente que a nota máxima é justificada, quer em valor quer em estrelas. Este é daqueles filmes de visualização obrigatória. Não considero a fita previsível como alguns afirmam e o final é dotado de uma magnificência que deixa qualquer um boquiaberto. Simplesmente genial e obrigatório.

A frase:
"You shouldn't keep souvenirs of a killing. You shouldn't have been that sentimental. "

Ante-Cinema# / Cinema is my Life

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Crítica - "Houdini, O Último Grande Mágico"

por Filipe Coutinho
(Esta Crítica pode ser lida na íntegra em "Cinema is my life")

Nota:

Utilizando a mui nobre sabedoria popular, pela qual possuo um grande respeito, há uma expressão que define na perfeição esta fita. É ela: "Nem é carne, nem é peixe". Ao fim de 97 minutos continuamos sem saber se "Death Defying Acts" é um drama, uma comédia, um suspense, tudo isso ou simplesmente nada disso. Este é apenas e unicamente o grande mistério do filme de Gillian Armstrong (realizadora de "Charlotte Gray), já que em termos cinematográficos ele é pouco ou nenhum. Aliás, neste registo existem propostas infinitamente melhores (as comparações são inevitáveis), nomeadamente o soberbo "The Prestige" de Christopher Nolan, com Christian Bale, Hugh Jackman e Michael Caine ou "The Illusionist de Neil Burger, com Edward Norton e Jessica Biel. Com um cartaz tão atractivo e com nomes tão sólidos da sétima arte nada fazia antever que "Death Defying Acts" fosse mais uma desilusão cinéfila este ano. O intemporal e, até agora inigualável Harry Houdini, merecia mais, muito mais.

"Em 1926, Harry Houdini - mágico e ilusionista - é o maior artista do mundo e o público reúne-se para assistir avidamente às suas proezas. Determinado em desmascarar falsos videntes e charlatães, Houdini (Guy Pearce) propõe oferecer dez mil dólares a quem conseguir comunicar com a sua defunta mãe. Quando Mary, uma misteriosa e deslumbrante impostora (Catherine Zeta-Jones) aceita o desafio, Houdini não tem dúvidas que se trata de burla. Mas à medida que o mágico vai convivendo com Mary, vai sucumbindo ao seu charme, acabando refém dos seus próprios sentimentos. Conseguirá o maior escapista do mundo libertar-se da força do amor? Este será o desafio mais arriscado da sua carreira." (sinopse retirada do site Ptgate)

Quanto às prestações, também elas poderiam ser bastante superiores em termos qualitativos se bem que acabam por ser o ponto alto da fita. Guy Pearce, que ofereceu-nos uma interpretação memorável em "Memento", desilude mantendo, ao longo do total da duração do filme, uma inconsistência algo incompreensível oscilando entre o profundo empenhamento e o absurdo interpretativo. Se é verdade que, a espaços, deparamos-nos com rasgos de talento, também é crucial mencionar que Pearce parece totalmente irreconhecível. Mas como nem tudo é mau, uma sensual e cativante Catherine Zeta-Jones é uma das grandes responsáveis que elevam a qualidade do filme. De facto, Jones consegue ser consistente mantendo uma classe intrínseca à sua invejável personalidade aliando o talento de uma performance old school. Depois temos um pequeno génio, destas andanças cinematográficas, denominado Saoirse Ronan que comprova que a sua extraordinária actuação em "Atonement" não foi um simples e mero acaso. Aqui denota uma versatilidade estonteante bem como um incrível sinal de maturidade de uma actriz com apenas, e eu friso, apenas 14 anos. Outro bom registo é o de Timothy Spall, que consegue apresentar a notoriedade que tem demonstrado em inúmeros outros filmes e séries de tv. O restante elenco cumpre com as obrigações mas não está ao nível de um filme de época. Relativamente à realização, Gillian Armstrong não parece muito segura do seu trabalho oscilando entre planos de uma beleza irónica com outros totalmente desnecessários. Também na direcção de actores Armstrong não consegue provar que tem estofo para ocupar a cadeira que utiliza, não conseguindo extrair o máximo de cada um, nomeadamente, Guy Pearce.

Em termos artísticos existem alguns aspectos que devem ser mencionados como o pobre argumento que é completamente incapaz de prender o espectador. Nem os diálogos, nem a narrativa permitem que a curiosidade seja suscitada no espectador. O final é desastroso, sem qualquer tipo de chama ou faísca. Existe ainda uma tentativa de obter uma história de amor comovente que falha em toda a linha, muito por causa da frieza da realização e da falta de intensidade emocional que deveria ser imposta pela banda-sonora. Sonoplastia, essa, que é bastante inconveniente surgindo em momentos inoportunos em que o silêncio era imperial e agonizando outros que necessitavam de acompanhamento musical. Já a fotografia apresenta-se em bom nível oferecendo-nos planos muito interessante e dotados de uma visão clara e pensada.

Em termos globais, "Death Defying Acts" é uma fita medíocre que desiludiu face ao seu aparente potencial. Como já foi foi mencionado supra, existem propostas exponecialmente melhores cinematograficamente e que manterão a fasquia bem elevada para todos os que tentarem ridicularizar a vida de um grande ilusionista como Harry Houdini. No entanto, é inegável que o entretenimento está assegurado e que contamos com duas brilhantes performances das actrizes principais. Por tudo isto, atribuo a nota de 5/10 ou duas estrelas (e meia) em cinco possíveis. O seu visonamento é aconselhável caso seja um fã deste género. Caso contrário é melhor esperar pelo DVD.

A frase:
"I think you're the one we had been waiting for"



Ante-Cinema# / Cinema is my life

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Crítica - Into the Wild

por Filipe Coutinho
(Na íntegra também em "Cinema is my Life")

Nota:
Aquele que podia ser o melhor filme da minha vida se tivesse visto numa sala de cinema não é. E tudo isto porque a Lusomundo optou por não adquirir os direitos desta fita e, tendo em conta que esta é responsável pela grande maioria de salas que figuram no nosso país, o acesso ao filme tornou-se bastante difícil e revelou-se, para mim, uma das maiores perdas a nível cinematográfico. Assim sendo "Into the Wild" é só um dos melhores filmes da minha vida e, certamente, terá lugar no meu top 10 durante anos e anos e anos e anos e anos... Apenas refiro esta distinção entre a visualização no cinema e em casa porque, para mim, é extremamente significativa. A magia oferecida pela sétima arte em uma sala é qualquer coisa fenomenal aquando do filme certo. E este era definitivamente o filme certo.

"Into the Wild" é uma adaptação do livro Jon Krakauer que conta a história do recém-formado Crhistopher McCandeless, um jovem atleta e detentor de notas excelentes com um espírito extremamente aventureiro que um dia decide dar todas as suas poupanças à caridade com o intuito de ir viver onde se sente melhor: no meio da natureza longe das grandes povoações. Nascido em um berço-de-ouro, cedo nutre um ódio pelos pais, juntamente com a sua irmã, devido à forma como vivem uma vida recheada de ilusões e materialismos. A jornada pelo seu destino final, o Alasca, começa com uma nova identidade, Alex Supertramp, começando também uma viagem marcante recheada das mais distintas personagens que o ensinam o melhor e o mais simples da vida, desde o valor sentimentos até à necessidade de partilhar a felicidade.

O que Sean Penn conseguiu aqui foi um trabalho perfeito. Sim, utilizo mesmo o termo perfeito pois ele não existe. Mas dentro do que é, na minha óptica, a perfeição, ou seja, o melhor possível com virtudes e defeitos, a fita realizada por Penn é perfeita. E o trabalho deste por detrás das câmaras é fabuloso, desde a captação das maravilhosas paisagens até à concepção de um ideal literário transformando-o em um primoroso deleite visual. Seria injusto falar apenas do realizador quando um jovem actor tem uma interpretação do tamanho do mundo. Emile Hirsch é simplesmente genial desde o primeiro momento em que aprece no ecrã. O realismo com que enfrenta cada situação, o sentimentalismo por ele emanado, a alegria e a tristeza são todos tão brilhantemente verídicos que parece estarmos a assistir à vida real do próprio McCandless sem este saber que está a ser filmado. Pode parecer uma comparação incredível, mas não o é. A fita fala por si. Depois há o restante elenco secundário que, verdade seja dita, é soberbo. Todas as personagens que, à sua maneira, marcam o jovem Crhis são brilhantemente interpretadas por jovens, adultos e idosos actores. A riqueza cultural transmitida por cada uma das gerações é extremamente realista e honesta em performances que vão desde Kirsten Stewart, passando por Vince Vaughn e terminando em um ternurento Hal Holbrook que, de resto, foi nomeado para o Óscar de Melhor Actor Secundário na mais recente cerimónia. Também os pais do jovem aventureiro, interpretados por Marcia Gay Harden e William Hurt, apresentam uma performance crua dotada de uma amargura realista e tocante.

Depois existem as paisagens. Essas paisagens que tiram o fôlego a qualquer individuo e que nos fazem sonhar e desejar estar perante tamanhas belezas naturais. Sinceramente, escasseiam-me as palavras no que toca à descrição desta fita muito por culpa das mais belas imagens que já visualizei em um filme. Também a ironia da vida que é conhecida e usualmente referenciada está presente na fita. Desta feita, foi a natureza que deu a vida a McCandless e foi a natureza que lha tirou. Era nela que este ia captar toda a sua energia, toda a sua força, toda a sua felicidade. Realmente é notável que esta história tenha, de facto existido. Honestamente gostava de ter a coragem para fazer tal coisa, mas a verdade é que não o conseguiria pois preciso de gente à minha volta, preciso de algum materialismo, preciso de estar na sociedade independentemente do quão má ela seja. Mas em uma coisa eu concordo, a natureza é realmente algo de extraordinariamente belo e, de facto, transmite energia revitalizante. Em termos artísticos, "Into the Wild" é sublime, começando, precisamente, na banda sonora inteiramente realizada para esta fita pelo amigo de longa data de Penn, Eddie Vedder (vocalista dos Pearl Jam). Cada canção parece enquadrar-se genialmente a cada frame e aumenta exponencialmente a intensidade e carga dramática. Depois ainda há uma fotografia concebida com a maior das mestrias que, apenas visualizando o filme, se poderá ter uma noção do quão tecnicamente apurada é.

Confesso que quando penso em "Into the Wild" as palavras falham-me, a poesia já não corre em letras. Apenas em imagens. Imagens essas que apenas podem ser vistas no filme. Imagens de rara beleza que marcam a paixão de um homem pela natureza, pela vida emanada em cada poro de cada planta, de cada árvore, pelo sopro de cada animal, pelo correr de um rio em direcção ao infinito, pelo desejo de se ausentar de um mundo materialista e consumista, pela exploração, pelo conhecimento, pela riqueza espiritual, enfim, pelo desejo em tornar-se um homem. Não um homem qualquer. Um homem que sabia o que é a vida e que molde os seus valores através do valor da verdade e daquilo que realmente é importante ao longo da nossa existência.

Um filme tão belo e tocante merece, e digo isto sem qualquer hesitação, a nota máxima, ou seja, 10/10 ou cinco estrelas em cinco possíveis. Uma fita tão bem conseguída quanto esta merecia maior distinção e reconhecimento mas, certamente, qualquer amante do cinema não passará ao lado desta obra que até me comoveu em diversas ocasiões. Única e obrigatória.

A frase:
"Some people feel like they don't deserve love. They walk away quietly into empty spaces, trying to close the gaps of the past."



Cinematograficamente Falando - 10/10: "[Into the wild]É uma adaptação da condição humana a um meio ambiente que já não lhe pertence. Cada frame apresenta um rigor técnico invejável e Penn mostra que além de ser um talentoso actor é um promissor realizador

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